PUBLICADO
NA REVISTA KIDS FESTEJAR
A
arte de sorrir cada vez que o mundo diz: não!
A fantástica
experiência de ter filhos transforma o ser humano completamente.
É um amor de tal
intensidade que pode ser chamado de oceânico.
Cada bebê é percebido
pelos pais como os mais bonitos, mais inteligentes, enfim, criaturinhas
incomuns. Por eles e para eles tudo é feito, tudo é pensando. Os pais na
tentativa de fazê-los felizes e realizados mobilizam todas as forças possíveis,
chegando até a esquecer de suas necessidades como homens e mulheres. Em vários
espaços sociais deixam de ser identificados pelo próprio nome e passam a ser
pai e mãe de.
É com enorme orgulho
que projetam nos filhos todos os ideais e expectativas de que tenham tudo que
eles próprios não alcançaram.
Em relação aos meninos
esperam que estes sejam fortes, viris, inteligentes e bem sucedidos. Já em
relação às meninas esperam que sejam graciosas, afetivas, cordatas, formem uma
família e por último tenham uma profissão.
Temos ainda na
atualidade um processo socializador baseado em concepções conservadoras, embora
isto seja constantemente negado. Mas se observarmos atentamente, veremos que as
meninas são estimuladas à fantasias, à posição romanceada frente a vida. Quanto
aos meninos a instrução invariavelmente os afasta dos sentimentos, da expressão
das emoções por serem consideradas coisas do feminino.
Embora estas afirmações
possam parecer muito radicais, se lembrarmos que os meninos são presenteados
com jogos, carrinhos e as meninas com bonecas que falam mamãe, fogões e mini
salões de beleza, veremos que estamos reeditando os papéis sociais para homens
e mulheres das gerações anteriores.
O que pretendo alertar
é que a repetição irrefletida de papéis pode levar à limitação no exercício da
autonomia no futuro, e consequente frustração. Aliás, isto é tudo que os pais não
desejam para os nossos príncipes e princesas. E como desejam o melhor para eles
é comum tentar protegê-los de qualquer forma de sofrimento, ou seja, evitando
situações que envolvam possíveis frustrações. A crença de que uma experiência
frustrante pode ser nociva costuma levar os pais a impedir que os filhos
vivenciem o mundo por uma ótica realística. Infelizmente ou não, a vida em
sociedade acaba por trazer situações que contrariam muitas das expectativas de
cada ser humano, e se a criança não foi preparada para experimentar limitações,
estará fadada à condição de fragilidade, impotência e sentimentos de rejeição,
dentre outros. Perdas, separações, tristezas, decepções, sonhos não realizados
fazem parte da trama do existir.
O que desejo enfatizar é que a
criança, desde cedo, precisa aprender a lidar com a existência de desejos,
posições e comportamentos diferentes dos seus.
Diferente do que muitos pensam, o
sofrimento da criança pode ser altamente benéfico. Levar um não dos pais, perder
um jogo, mudar de cidade, de escola, perder o animalzinho de estimação, ou
mesmo vivenciar a separação dos pais, podem ser aprendizagens dolorosas, mas
extremamente necessárias para a vida adulta. É claro que todas estas
experiências devem ser esclarecidas para a criança, num diálogo que considere a
etapa do seu desenvolvimento cognitivo, psíquico e social.
Uma atitude muito importante é nunca
ignorar ou desrespeitar a decepção e o sofrimento da criança. Omitir, distorcer
os fatos, ou mesmo negar a necessidade da criança de compreender uma situação
desagradável para protegê-la pode provocar insegurança, desconfiança dos
adultos que são sua referência, e, em decorrência disto o isolamento.
Entender desde muito cedo que a
vida tem fluxos e refluxos e que é uma eterna aprendizagem, leva à constante
construção de recursos internos para lidar com os fenômenos que a vida traz.
Sendo assim é possível não perder o bom humor, nem a crença nas possibilidades
futuras, nos momentos em que a vida diz: não!
Príncipes e princesas, mesmo nos
contos de fada, não sobrevivem se não aprendem a lutar! Imaginem na vida real!
Fátima Scaffo
Doutora em Memória Social –
UNIRIO. Mestre em Psicologia Social. Psicóloga e Gestalt-terapeuta.
fatimascaffo@gmail.com
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