Texto para a REVISTA NOIVAS FESTEJAR
Quando a soma de um mais um é maior que dois
O casamento é
sempre envolto em expectativas, senão certezas, de felicidade, comunhão,
plenitude e realização. É interessante notar que os nubentes acreditam que suas
vidas começarão dali para frente e que o vivido em outras relações ficou para
trás, sem nenhuma possibilidade de intromissão na harmonia idealizada. Até
então é possível que nenhum dos dois tenha se dado conta do quanto é preciso
ter sabedoria para amar e mais ainda, maturidade para construir e manter uma
relação em que um dos dois já traz concretamente o resultado de experiências
anteriores: filhos.
Temática
complexa que comporta múltiplas reflexões é geralmente deixada em segundo
plano, na esperança de que tudo se acomode. Ledo engano! Aliás, tudo que se
deixa para depois só tende a aumentar o volume e a gravidade. O acúmulo dos não
ditos, das insatisfações e dos equívocos vão provocar tsunamis de emoções
negativas que poderiam ser evitadas, caso fossem equalizadas no momento
apropriado. Mas o pior deste processo são as mágoas e ressentimentos,
experiências dolorosas que poderiam não ocorrer, caso o novo casal analisasse
com profundidade o que cada um levará para o percurso que se dispõe a trilhar
juntos. Mas voltemos ao nosso foco! Seriam os filhos do primeiro relacionamento
tão prejudiciais assim? Necessariamente não! O fato é que sejam frutos de um
relacionamento passageiro, de um divórcio, de uma perda por morte ou mesmo uma
separação superamigável, esses frutos trazem a lembrança do que foi vivido
anteriormente e se tornam fantasmas ameaçadores da felicidade do novo casal,
quando um dos dois não está preparado para adicionar o seu potencial de amar ao
filho ou filhos do par tão sonhado. Mas será tudo uma questão de dar amor? Claro
que as coisas não são tão simples assim, os filhos também podem trazer na bagagem
sentimentos de rejeição, medo, frustração, intolerância, enfim, todo um arsenal
de emoções que realmente podem dificultar o tão idealizado equilíbrio familiar.
Tenho ouvido
com grande frequência o quanto é difícil saber por onde começar numa situação
como esta. Sempre esclareço que a imaginação pode ser mais cruel do que a
realidade. Portanto, ficar sofrendo em silêncio, sem explicitar suas
insatisfações, tentando agradar e escondendo do parceiro as dificuldades em
questão, não vão melhorar em nada os conflitos velados ou não. Quando isto
acontece é hora de descer das nuvens e por mãos a obra da realidade, ser
artífice do seu destino. Para tal, é fundamental examinar a situação por ângulos
diversos. Uma mesa redonda interna, ou seja, um diálogo com os EUS que habitam
em nós é um exercício precioso, pois ajuda a perceber o quanto estamos implicados
no ataque, na disputa ou no recuo estratégico, na conquista e na harmonização
interior.
Bem, as
reflexões que apresento a seguir são meras sugestões sem nenhuma pretensão de
uma receita do tipo: Assim tudo dará certo!
Então vamos
lá! Primeiro é preciso desmistificar a ideia de uma relação com equilíbrio
permanente. Não há equilíbrio estático!
Para haver equilíbrio é preciso movimento, oscilações, os fluxos e refluxos fazem parte
da vida. Então não é necessário desesperar quando perceber que não será tão
fácil ser feliz com a presença dos filhos do outro relacionamento.
É importante
lembrar que desafios são sempre mais estimulantes quando enfrentados em
parceria. Assim, se o casal estiver estrategicamente unido, a empreitada se
tornará mais fácil. Segundo é importante que cada um tenha clareza do lugar que
ocupa na vida do outro. Esta clareza eliminará a tão comum disputa do amor do
par que os tem filhos. Outra questão tão importante quanto as já citadas é
perceber se a criança interior, aquela que sofreu carências na família de
origem, aquela que todo mundo esconde, surge agora, e, de forma egocêntrica
exige atenção exagerada, aceitação e amor incondicional, fazendo com que o
adulto que a possui se comporte de maneira totalmente infantilizada. Terceiro é
fundamental não entrar em disputas de quem é melhor ou mais legal do que o (a)
ex. Ser quem se é já dá um enorme trabalho, interpretar um personagem então,
acaba sendo desumano em função do gasto enorme de energia para não errar em
cena.
Em relação aos
filhos, estes precisam ter certeza de que são amados, compreendidos,
respeitados e protegidos. Pais separados ou não, devem ser referências positivas
para os filhos!
Acredito que
nesta e em qualquer situação a assertividade é o melhor instrumento. Como ser
assertivo? Um comportamento assertivo é aquele em que a pessoa fala dos seus
sentimentos sem procurar ferir ou responsabilizar o outro pelo que sente. Por
exemplo: Eu me sinto (...) quando (...) acontece. Ficou claro? O que quero
dizer é que quando explicitamos o que sentimos, apontando de maneira focal o
que nos incomoda, não atingimos a totalidade do outro e assim diminuímos a
necessidade do outro de defender e não ouvir o que temos a dizer. Um
comportamento assertivo leva à construção de relações saudáveis, a organização
de limites e principalmente ao aumento do conhecimento do outro sobre nós. Então
se o outro sabe o que é gostado e o que não é, e ainda assim não dialoga sobre
a questão, é porque falta respeito, consideração e sobretudo amor. Se a relação
com os filhos deste “parceiro” está ruim, com certeza a responsabilidade não é
só deles. Falta entre o casal outros ingredientes necessários à tão sonhada
felicidade. Maturidade, cumplicidade, compreensão, sinceridade são aspectos essenciais
para vida a dois, a três ou mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário