A
transmissão dos protocolos de gênero como dispositivo de submissão feminina à
violência conjugal
*Francisco Ramos de Farias
**Maria de Fátima Scaffo
Resumo: Este artigo analisa a maneira pela
qual a mulher, historicamente, responde, no cenário familiar, à violência
conjugal. Em princípio, o recorte, adotado como objeto de estudo e análise,
consiste em uma modalidade típica de violência impetrada à mulher no contexto
das engrenagens que configuram o encontro homem-mulher. Aponta os fatores
potencializados nesse encontro que produzem a violência, aventado a possibilidade
de se refletir sobre aspectos da condição masculina ou em fantasmas do universo
feminino. Considerando a questão de gênero levanta-se a seguinte indagação: a
posição da mulher é construída em função dos princípios educativos que
condicionam um determinado tipo de papel à mulher ou existem outros
determinantes? A análise e discussão dessa temática será realizada,
considerando a transmissão geracional de normas-protocolos de gênero de mãe
para filha, bem como a constante reedição, de forma irrefletida, que se
constitui como raízes modeladoras da conduta da mulher e que fazem parte da
dinâmica do feminino nas relações de
gênero, nas quais a mulher ocupa historicamente um plano subalterno. Provavelmente,
a condição de subalternidade reflete a transmissão pela mãe para a filha de
padrões estereotipados culturalmente atribuídos à mulher e que são aceitos e
reproduzidos, de forma quase automática, no cenário das relações conjugais.
Palavras-Chave: violência.
conjugal. protocolos. submissão. feminina.
The transmission protocols of gender as female
submission device to marital violence
Abstract:
This article examines the way in which women
historically replies, family background, marital violence. In principle, the
snip, adopted as an object of study and analysis, consists of a typical mode of
violence to the woman filed in the context of the cogs that make up the
encounter between men and women. Points out the factors that exacerbated the
meeting that produce violence, raised the possibility of reflecting on aspects
of male condition in ghosts or the feminine universe. Considering the gender
issue raises the following question: the position of women is constructed based
on educational principles that affect a particular type of role to women or
there are other determinants? The analysis and discussion of this theme will be
carried out, considering the generational transmission of norms of
gender-protocols from mother to daughter and the constant reissue, so
thoughtless, that constitutes the root of the shaping and conduct of women who
are part of the dynamics of feminine in gender relations, in which the woman
occupies a historically subordinate plan. Probably reflects the condition of
inferiority by transmission from mother to daughter stereotyped patterns
culturally assigned to women and that are accepted and replicated, almost
automatically, in the setting of marital relations.
Keywords: violence. marriage. protocols. submission.
female.
Los protocolos de
transmisión de género como dispositivo de sumisión de la mujer a la violencia
conyugal
Resumen
Este artículo examina la
forma en que las mujeres históricamente respuestas, los antecedentes
familiares, la violencia conyugal. En principio, el recorte, adoptado como un
objeto de estudio y análisis, consiste en un modo típico de la violencia a la
mujer presentada en el contexto de los engranajes que componen el encuentro
entre hombres y mujeres. Señala los factores que exacerbaron la reunión que
generan violencia, planteó la posibilidad de reflexionar sobre los aspectos de
la condición masculina en los fantasmas o el universo femenino. Teniendo en cuenta
la cuestión de género plantea la siguiente cuestión: la situación de las
mujeres se construye sobre la base de los principios educativos que afectan a
un determinado tipo de papel que la mujer o hay otros factores determinantes?
El análisis y la discusión de este tema se llevará a cabo, teniendo en cuenta
la transmisión generacional de las normas de género protocolos de madre a hija
y la reedición constante, de manera irreflexiva, que constituye la raíz de la
formación y el desarrollo de las mujeres que forman parte de la dinámica de
femenino en las relaciones de género, en los que la mujer ocupa un plan
históricamente subordinados. Probablemente refleja la condición de inferioridad
por la transmisión de madre a hija estereotipados patrones culturalmente asignados
a las mujeres y que se aceptan y se replica, casi automáticamente, en el marco
de las relaciones conyugales.
Palabras claves: la
violencia. el matrimonio. protocolos. presentación. femenino.
Introdução
Este
artigo objetiva analisar a posição da mulher frente à violência conjugal, buscando
possíveis articulações com campo interdisciplinar da memória. Contudo, daremos
a esta análise um recorte ainda pouco explorado nas investigações sobre posição
da mulher frente à violência: a transmissão de protocolos de gênero de mãe para
filha.
Uma
das razões que nos leva a percorrer este caminho é o fato desta relação abrigar
fronteiras psíquicas muito tênues, por isto, campo fértil para várias
identificações e reedições que passam despercebidas para ambas.
A
hipótese lançada nesta discussão é que embora seja atualizada pelos
atravessamentos sociais, produtores de novas demandas, a dupla mãe-filha,
reedita na geração seguinte o que foi vivido na geração anterior. Portanto, a
transmissão de protocolos de gênero de mãe para filha pode se constituir num
forte indicativo para a manutenção da subordinação feminina versus opressão
masculina.
Chodorow
(1978 apud GIFFIN, 1994, p. 152) argumenta que as meninas desenvolvem sua identidade
de gênero no contexto da identificação com a mãe, numa relação continuada com
ela. Sendo a educação dos filhos circunscrita ao espaço privado, contexto
desvalorizado face ao público, a mãe responsável pela criação dos filhos, também
se torna desvalorizada socialmente. A menina, ao se identificar com o outro (a
mãe) desvalorizado, passa a ocupar o lugar da vulnerabilidade, da baixa-estima
e, conseqüente dependência.
Vianna
et al (2006, p. 14) ressalta que o conceito de dependência inclui diferentes
tipos de fenômenos, entre eles a submissão – incapacidade da mulher se manter.
Ainda para estas autoras o fenômeno da submissão condiciona a mulher em função
do Outro; e a dependência faz com se ajuste ao que o outro espera dela por medo
de abandono. Quanto a esta posição, Benjamin (1990, p. 57) argumenta que será
refletida em outras relações, onde: “a posição do homem é de fazer da mulher um
objeto, tanto na sua violência contra ela como no seu autocontrole racional. Já
a posição da mulher é de se sentir um objeto passivo e aceitar sua falta de
controle”.
Vianna,
et al (2006, p. 16) no que tange ao comportamento da mulher relegar suas
necessidades afetivas a segundo plano ressaltam: “É exatamente aqui que
acontece a vivência do vazio interior como sensação de carência e confusão que
as faz se sentirem débeis, fracas e tender a estar compulsivamente dependendo
de outra pessoa”, terreno fértil para a
violência de gênero (grifo nosso).
A
noção de gênero vem muitas vezes sendo confundida com a idéia de sexo feminino,
quando em realidade surgiu exatamente para destacar essa distinção (D’OLIVEIRA,
1999).
Gênero é um constructo abstrato, um princípio
de classificação que intensifica a apreensão da complexidade das relações
sociais. Mead (1979) afirmava serem os conceitos de gênero principalmente
culturais e não biológicos - idéias revolucionárias que só recentemente,
através do movimento feminista, receberam atenção.
A
discussão sobre categoria de análise gênero reconsiderou todos os constructos
binários baseados na diferença biológica que naturalizava a opressão masculina
versus subordinação feminina. No entanto, no campo das relações sociais, em
especial, nas relações conjugais, onde a violência continua ocorrendo em ampla
escala, ainda se constata a universalidade da opressão masculina e a conivência
social com a dominação e a violência contra a mulher. Compreender o fenômeno
violência contra a mulher exige uma análise multifatorial que contemple a
diversidade de aspectos estruturais (economia, sociedade, cultura), históricos
(grupos sociais e sua localização num tempo histórico-social) e conjunturais
(contexto no qual a violência se expressa).
A
violência contra a mulher é tecida pelas dimensões de gênero, que por sua vez
se encontram espelhadas nas formas discursivas e no sistema de valores que
circunscrevem o feminino como frágil, com menor capacidade de racionalidade,
pertencente a um “plano de fundo”. Estas introjeções não operam apenas na ordem
simbólica, mas, sobretudo, estruturam lugares sociais que potencializam
relações historicamente marcadas pela desigualdade entre homens e mulheres,
fenômeno que atinge a todas as classes sociais, etnias, religiões e culturas,
ocorrendo em populações de diferentes níveis de desenvolvimento econômico e
social.
As concepções do que é ser homem ou mulher, cuja
transmissão geracional ocorre através da memória, ainda se encontram
impregnadas pelo padrão patriarcal, cujo binarismo - virilidade agressiva
natural do homem e a passividade masoquista da mulher, conferem ao amálgama da
submissão feminina certa naturalidade.
Retomando a hipótese proposta no início deste
ensaio, discutiremos a seguir a transmissão de protocolos de gênero de mãe para
filha, considerando este processo como um indicativo para a manutenção da
subordinação feminina frente ao masculino.
A construção do ser mulher marcado por
memórias ancestrais
Ser
mulher é resultado de uma intrincada rede de significações sociais que remete,
às inúmeras representações: papéis, modelos de comportamentos, preconceitos,
interditos morais, dentre outros.
Estes
protocolos impregnados pela concepção do patriarcado, exercidos primeiramente
no seio familiar, não só reduzem as possibilidades de escolhas de como ser,
como inculcam modelos universalistas e assimétricos.
D’Avilla
Neto (1994, p. 39) chama atenção para esse aspecto: “A família, criando
diferentes papéis para seus membros, bloqueia as condições necessárias para que
se possa assumir livremente a identidade”. Giffin (1994) identifica a família
como a principal instituição que organiza as relações sexuais entre gêneros.
Como
lócus onde o controle social atua diretamente sobre o corpo da mulher através
de proibições, punições e compensações, demarca a assimetria de poder entre o
homem e a mulher, cuja identidade principal é a de mãe. Neste espaço privado, a
mulher-mãe é responsável pela construção de moldura estreita para as meninas e
incentivo à autonomia e realização profissional para os meninos, repetindo de
forma inconsciente ou não, o discurso ideológico da divisão social papéis entre
o público e o privado.
Tal
discurso carregado de silêncios e ocultações hierarquiza o lugar da mulher na
sociedade, alocando-a na esfera privada, cuidando dos filhos e do marido, inibe
iniciativas de realização profissional, naturaliza as desigualdades entre os
gêneros, levando a mulher à marginalidade social.
Para
Rocha-Coutinho (1994) o processo de sentimentalização do espaço familiar, que
confinou a mulher ao lar, também outorgou a ela uma forma de poder sobre os
bens “simbólicos” – os filhos. Para estes, “ela se torna produtora de sentido,
nomeadora de seus atos e sentimentos, produtora de mandos e dúvidas” (op. cit.,
p. 39). Essa produção fruto de experiências no lugar de filha, ao ser
transmitida pode ser suavizada em nome do projeto que aprendeu a defender: a
manutenção da família unida. Mantê-la é não fracassar diante da própria mãe e
da sociedade, é cumprir um papel atribuído a sua natureza: natureza voltada
para o Outro.
Presa
ao lugar que lhe é destinado pelo discurso da natureza feminina, a mãe-mulher
produz e reproduz suas memórias e significações para a filha-mulher: processo
que se tornará pilar na subjetivação do feminino. Na transmissão de sua
história não há necessariamente a busca do que é verdadeiro, mas a alimentação
de estereótipos que visam à localização do homem e da mulher no cenário social.
“Las madres contribuyen a alimentar estos esteretipos educando su hijos para
que sean valintes, (...) a lãs hijas a ser dulces (...) y a centrar-se em lãs necesidades
de los demás (HIRIGOEN, 2008, p. 58).
Desta
forma observamos que as exigências protocolares relativas ao espaço privado –
família, incidem muito mais sobre a mulher. A aderência às normas e costumes
familiares que se organiza em torno da mãe pela dependência e em torno do pai
pela obediência, torna a mulher-filha herdeira de uma cultura de subordinação e
desvalorização. Ao receber prescrições que atravessam gerações de lugar
secundário, a mulher desenvolve altíssimo grau de identificação com um passado
formatado por concepções patriarcais, cujo relevo atravessa seu imaginário, não
lhe permitindo discernir se o traço identitário é fruto de uma memória herdada.
Esta assunção dos protocolos de gênero transmitidos pela mãe faz com que seja
estabelecido um pacto, por vezes silencioso, entre filha e mãe de manutenção do
enquadramento comportamental.
Na
relação mãe-filha, a mãe é senhora da memória e do esquecimento. Portanto,
através da produção discursiva materna, na construção do ser mulher da filha, ficam
evidentes as escolhas maternas entre os ditos – não ditos, silêncios,
esquecimentos, afirmações e negações. “A função da lembrança é conservar o
passado na forma que é mais apropriada a ele, ou seja, só fica o que significa”
(BOSI, 1979, p. 384).
Sendo
assim, a força discursiva materna inclui a filha num processo de enquadramento
social que transcende a individualidade, e, consequentemente, nega a diferença,
impondo homogeneidade ao feminino. Estas imposições implícitas ou explícitas
regulam a socialização que cada nicho social produz para aquele sujeito. No
caso da mulher, a subjetivação das funções é marcada pela ambiquidade do
discurso materno. “Por um lado, se educa a lãs niñas para que esperen al
príncipe encantado y, por outro lado, se lãs pone em guardiã contra todos los
demás hombres” (HIRIGOEN, 2008, p. 63).
Tal
ambiguidade discursiva, que por um lado prepara a mulher para representar a
personagem da princesa encantadora, atrativa, amável e compreensiva, por um
lado a faz antagonicamente buscar se proteger de um perigo que não aprendeu a
reconhecer, mas somente respeitar. Nessa teia, a autenticidade e capacidade de
filtrar e reagir aos autênticos e reais perigos ficam minadas, resultando em
sublimação de sua assertividade e objetividade. A instrução para desempenhar o
papel de viver a espera de alguém e viver para este Outro, a faz esquecer-se de
si mesma e aceitar decisões ao invés de tomá-las.
Recorremos
a Hirigoyen (op. cit., p. 64) para ratificar nossa afirmação:
“Las mujeres se forjan un <<yo
ideal>> em función de las normas sociales vehiculadas por su família y la
sociedad. Por eso algunas, siguiendo el modelo de la madre disponible y
entregada, piensan que, para conservar a un hombre, hay que demostra abnegación
y sumisión. Al haber aprendido muy jóvenes que para merecer El amor de sus
padres debían ser útiles y poner la felicidad delos demás por delante de la
suya, hacen demasiado por el outro”.
Ressaltamos
que ser para o Outro, prescrição explícita no discurso materno, envolve não só
uma mentalidade casamenteira, a demarcação do lugar feminino e suas
atribuições, mas instala uma concepção de sexualidade que exige “a passividade
erótica da mulher na conjugalidade”(ROCHA COUTINHO, 1994). Deserotizada,
intensifica a fantasia, reprime seus desejos, e reforça a autovigilância atendendo
às expectativas das qualidades atribuídas a ela.
Desta
forma, as heterogeneidades são dissolvidas, e, os aspectos singulares passam a
integrar um todo generalizado que “consolida
a natureza feminina” (grifo nosso), cujo eixo básico envolve: afetividade,
carência, dependência, submissão e intuição. Esta “natureza” é inscrita em
processos mais amplos, ou seja, para além do espaço privado familiar, que a
valoriza, vinculando-a a capacidades estabelecidas socialmente para a mulher de
família. Esta, espelho de sua mãe, tem o casamento e a maternidade como
destino. A exemplo de sua mãe torna-se a primeira educadora de seus filhos,
transmitindo-lhes os comportamentos que asseguram a organização social da qual
faz parte. Ressaltamos que cada processo de transmissão protocolar aos
descentes evidencia a associação emocional a programação recebida da geração
antecedente. Ao ficar colada ao discurso materno, portanto da geração que a
antecede, a mulher abdica de criar sua própria existência.
A
submissão à memória herdada da mãe implicará na reprodução do modelo de
relacionamento dos pais. Desta forma, os traços mnêmicos experimentados no
lugar de filha, se interpõem ao fluxo do momento presente impondo a necessidade
de elaboração do legado que lhe foi transmitido. A não elaboração das vivências
passadas, ou melhor, a não atualização dos scripts que constituíram seus traços
identitários poderão causar conseqüências extremamente nocivas para si própria,
e, consequentemente, para o seu relacionamento conjugal.
A
seguir apresentaremos algumas dessas conseqüências, dentre tantas, ocasionadas
pela assunção irrefletida dos protocolos de gênero transmitidos geracionalmente
pela dupla mãe-filha.
Condicionamento
protocolar: algumas conseqüências
A aprendizagem dos protocolos de gênero transmitidos
de mãe para filha forma a subjetividade feminina.
“(...) sem uma relação íntima, desde o começo
da vida, com uma figura materna, não podemos ter
identidade, não podemos elaborar nenhuma sensação de nós “mesmos”. Contudo,
sempre há o risco da destrutividade inerente a essa relação, que pode aleijar e
deformar a próprio self que cria.” (KOLBENSCHLAG, 1991, p. 61).
As projeções dos pais em relação aos
filhos, independente do sexo, são diferentes e têm início antes do seu
nascimento. No entanto, a restrição e direcionamento quanto ao papel social que
a filha desempenhará no futuro, une os pais nas etapas de seu desenvolvimento.
Como administradora desta educação, a mãe passará grande parte do seu tempo ao
lado de sua filha, modelando suas manifestações comportamentais. Essa questão
pode ser uma explicação para a mulher apresentar recato e pudor em relação ao
seu próprio corpo. Nessa relação a filha é estimulada desde cedo à simbiose
materna, condição que pode perdurar por toda existência em função de seu frágil
autoconceito. A permanência nessa
condição transforma sua relação com amigos, cônjuges, dentre outros, numa forma
incessante obter aprovação, reconhecimento nos moldes da relação materna. A
compulsão em receber aceitação e aprovação, semelhantes à condição de filha,
efeito nocivo dos protocolos memorizados, leva a mulher a desenvolver culpa e
ressentimento, em especial no âmbito da relação conjugal.
Ao abdicar da responsabilidade pela
auto-realização, cria um vácuo existencial que procura preencher limitando-se
ao papel de reprodutora e guardiã do lar.
Para
Kolbenschlag (op. cit.) “as filhas repetem a vida emocional das mães. Ainda para
esta autora “a mãe pode cobrar tributo pela dedicação, educação e proteção da
filha: pensar igual a ela, agir igual a ela, ser igual a ela e realizar o que
ela não conseguiu”. Essa cobrança explícita ou não, tem o mesmo potencial
deletério na vida psíquica da filha que oscila entre o atendimento ao que a natureza lhe destinou ou pagar o preço do
afastamento do dom inato para ser feliz como mãe de família (grifo nosso).
Ressaltamos
que as duas condições citadas não escapam à armadilha cultural para a mulher. A
dinâmica da perpetuação das características do feminino transmitidas pela
educação materna, ultrapassa o âmbito da relação primária mãe-filha, e, são
efetivamente reforçadas por todas as instituições sociais. Essas instituições
reforçam a repetição dos protocolos, principalmente em relação à maternidade,
freando os possíveis desejos de transcendência através de estereótipos de
rejeitadas, incompletas e desnaturadas.
Assolada
pelos desapontamentos familiares e sociais, a mulher se vê coibida pelas
pressões institucionais que negam sua auto-realização através da
individualidade.
A
ausência de auto-determinação ocasionada por uma existência de dependência
emocional causam efeitos nocivos óbvios na conduta feminina.
São
comuns o aparecimento de disfunções psíquicas, entre as quais destacamos as
depressões, compulsões alimentares, insônia, instabilidade humoral, todas
associadas a uma série de temores. Algumas se tornam comatosas, passivas,
apresentando aparente satisfação com seu papel herdado.
O
caminho que leva ao afastamento dos protocolos de gênero também se apresenta
árido e hostil.
Lembramos
que a internalização dos protocolos transmitidos na relação mãe-filha são
oriundos das mensagens anteriormente recebidas, e, envolvem no mínimo três
gerações. São transações que tomam por base significados e crenças de uma
comunidade, classe social, organização política, parentesco e religião.
Portanto, romper com os protocolos é romper
com a memória coletiva predominante no qual as memórias fazem referência.
“A concepção da função
primordial da memória, enquanto imagem compartilhada do passado que é a de
promoção de um laço de afiliação entre os membros de um grupo com base no seu
passado coletivo, conferindo-lhe uma ilusão de imutabilidade, ao mesmo tempo,
que cristaliza os valores e as acepções predominantes do grupo ao qual as
memórias se referem” (HALBWACHS, 1968, p. 21).
Retomando a questão do afastamento dos
paradigmas impostos à mulher e suas conseqüências, ressaltamos que outros
conflitos advindos das pressões externas se instalam. Nessas circunstâncias a
mulher é vista de forma distorcida e negativa. Em decorrência disso, diferentes
estratégias de controle são empregadas tanto pela mãe como por diferentes instituições,visando
restringir ou mesmo enquadrar a mulher em sua posição na ordem social.
“(...), as controle,
influência e poder são partes das
expectativas que a sociedade desenvolveu sobre os diferentes papéis
associados ao sexo.Uma vez que estas expectativas sociais regulam o modo como
as pessoas se comportam, assim como a forma como o comportamento dos outros é
avaliado, elas afetam tanto a maneira como as pessoas usam estas estratégias
para controlar os demais, quanto a maneira como as pessoas reagem às
estratégias utilizadas por estes” (ROCHA-COUTINHO, 1994, p.127).
Em
resposta a essas pressões a mulher pode desenvolver diferentes atividades
compensatórias. Por exemplo, o comportamento de aquisição de bens de consumo
como forma de demonstração de autonomia, tomada de decisão e poder. O
consumismo causando sensação de mobilidade, exercício de escolha e
gerenciamento econômico provoca a idéia de auto-sustentação, sensação
compensatória para o baixo nível de auto-realização.
Essas
manobras que visam assegurar o poder de auto-realização de forma diversa do
papel que lhe foi prescrito, são mecanismos de esquiva-desvio do sentimento de opressão
e desproteção, que o afastamento do desempenho do papel de mãe de família lhe
causa.
A
concepção do que é ser mulher é intuída pela filha através da aprendizagem, ou
melhor, da leitura dos sinais ambivalentes maternos que a estimulam à
auto-suficiência, à realização dos projetos da mãe enquanto mulher, à escolha
seu destino, e antagonicamente dar continuidade a existência materna
procriando.
Fica
claro que os protocolos recebidos pela mãe não lhe permitem escolhas. Ao
contrário direcionam para gestar um Outro antes de si mesma.
Presa
a armadilha da repetição protocolar, a mulher abdica de sua realização pessoal
esperando gratificação e reconhecimento do seu sacrifício em favor de um Outro.
Essa auto-violência naturalizada pelas prescrições geracionalmente
transmitidas, a tornam submissa às violências que lhe perpetradas por pessoas
com as quais estabelece laços identitários e afetivos para formação de sua
família na qual reinará como mãe.
Condicionamento protocolar e submissão diante
da violência
Como
vimos a construção da mulher tem como protocolo principal o espaço privado da
família e a maternidade.
Diversos
estudos apontam que a argumentação tradicional tenta explicar a diferença entre
o masculino e o feminino pela maternidade, dependência e valores domésticos.
Diferentemente dos outros fatores, a dependência tem sido identificada como um
dos grandes, se não um dos maiores obstáculos para a autonomia e avanço das
mulheres. Nessa discussão a questão econômica ganha maior destaque, uma vez
que, baseada na divisão pelo sexo, a sociedade valoriza mais o homem em termos
de remuneração salarial, cargos de chefia, entre outros benefícios.
Podemos
então inferir que a dependência financeira e afetiva da mulher se dá em função
da baixa-estima fruto da força social dos protocolos de gênero?
Vianna
et al (2006, p. 15) sobre a questão ressaltam que:
“o conceito de dependência
costuma incluir diferentes tipos de fenômenos, entre eles aquele que significa
submissão, ou seja, a incapacidade da mulher se manter, condicionando-a em
função do outro, e a dependência que faz com que a mulher se ajuste ao que
outra pessoa espera dela por medo de abandono. \por outro lado, a dependência
pode advir da necessidade que se tem de outra pessoa para cobri as carências
afetivas. Enquanto a dependência é uma trava para a libertação das mulheres, a
carência é inerente a condição do ser social. Ou seja, a necessidade afetiva
não pode ser confundida com a ausência de autonomia que tem posto as mulheres
numa relação de submissão no espaço público e privado”.
Em
concordância com as autoras, esclarecemos que para o alcance da autonomia e
independência é necessário a busca da satisfação das demandas individuais afetivas
e das que representam auto-realização.
Como
já aludimos anteriormente, a educação voltada para o Outro promove
auto-esquecimento, e, conseqüente auto-desvalorização, o que permite ao Outro
se tornar hierarquicamente superior. Essa assimetria característica das
relações de gênero afirma dualismos que persistem por diversas gerações.
Portanto,
antes de constituir a família tão idealizada pelos protocolos de gênero, a
mulher já apresenta um altíssimo nível de fantasia, estimulada pela concepção
romanceada de “e viveram felizes para sempre”. Porém, nem mesmo a permanência
em segundo plano garantirá a proteção e segurança tão sonhadas.
Para
viver uma relação de conjugalidade é necessário se dispor a negociações que
possibilitem tolerância à alteridade e desconstrução das culpabilizações
mútuas.
Considerando
que ainda na atualidade as concepções do que é ser mulher e homem sofreram
pouquíssimas mudanças, o contrato protocolar do casamento ainda exige que a
mulher se submeta e o homem domine. Desta forma, a quebra de contrato vigente
pela mulher pode dar início ao jogo de manipulações que em última análise,
culmina em violência entre os cônjuges.
Longe
de reafirmar a concepção da vitimização feminina, tão debatida inicialmente
pelo movimento feminista que tem início nos anos 70, optamos por compreender
melhor a conjugalidade violenta, e, em especial a submissão da mulher a tal
condição.
Entendemos
que gestada na dependência e responsabilizada pelo sucesso da relação conjugal,
a mulher atribui sua permanência em relações conjugais violentas aos filhos, à
dificuldade financeira, ao alcoolismo e a perda do emprego do cônjuge, para
evitar o desapontamento familiar, entre tantas outras questões. No entanto
pesquisas relacionadas à temática demonstram que um percentual bastante significativo
de mulheres não abandona o cônjuge, mesmo não tendo presentes os fatores
citados.
Diversas
teses afirmam que universalmente a violência conjugal não conhece fronteiras.
Ocorre em diferentes classes sociais, etnias, religiões e culturas, ocorrendo
também em populações de diferentes níveis de desenvolvimento econômico e
social, e seu impacto causa danos não somente a mulher, mas também a toda uma
rede de relações. A pluricausalidade da violência nos coloca frente a um objeto
complexo e polissêmico que dificulta consensos e polariza diversos debates
acerca de suas determinações.
Concordamos
que a organização social permite práticas de poder que sustentam a supremacia
masculina e a desvalorização feminina, portanto mantendo um quadro de
desigualdades sociais, cuja estrutura hierárquica retém a mulher em posição subalterna.
Ressaltamos,
no entanto, que a violência conjugal se insere na caracterização de violência
doméstica, onde a mulher tem como vetores de sustentação a segurança, a
proteção e a afetividade.
Lembramos
que o espaço doméstico-lar habita o imaginário da mulher como a casa do pai,
diante de quem foi ensinada, na posição de filha a silenciar, respeitar, acatar
e a amar a despeito de qualquer coisa.
Essa
posição de implicação subjetiva resulta na fantasmática que povoa seu
imaginário até a fase adulta e porque não dizer por toda existência exigindo
elaboração. O lugar subalterno, internalizado desde a família nuclear, lhe
dificulta a clareza quanto aos cenários: casa do pai – casa do marido,
paralizando-a entre o sentimento de culpa por acreditar-se errada e merecedora
de punição, e o ressentimento por não ter sido atendida em suas expectativas e
fantasias românticas.
As
nuances da violência variam desde estratégias de desaprovação da conduta, destruição
das suas redes familiares e sociais, subtração de documentos, proibição de
qualquer aquisição sem consentimento do cônjuge, imposição para saída do
emprego, demonstrações de ciúmes que incluem mudança de trajes e restrições de
saída à rua, etc. Essas estratégias provocam isolamento, impossibilidade de
buscar apoio, sensação de desamparo, imobilidade e instabilidade. Todas
destroem a mulher psiquicamente, tornando-a débil e infantilizada. Nesse estado
confusional se submete cada vez mais ao seu algoz.
De
acordo com Fávero (2010, p. 275) há, portanto, um continuum crescente de condutas
abusivas (grifo da autora), que inclui:
“o
insulto, negação do universo afetivo, desaprovação de qualquer realização, a
culpabilização por todos os fatos e problemas que ocorrem na família, a
injúria, [...], a desqualificação como mãe, esposa, amante e profissional,
[...], a ameaça de violência contra ela e os filhos, e assim por diante”.
A
repetição da violência pode estabelecer um padrão cíclico de agressões e sedução,
visando amenizar o conflito e garantir a manutenção do silêncio, levando a mulher
a estados de oscilação entre frustrações e esperanças, tão semelhantes à fase
infantil. Talvez isso explique a dificuldade da mulher denunciar o cônjuge
agressor. Em seu imaginário pode ser desacreditada, e ainda perder seu amor, tal
como se sentia na infância em relação à sua mãe e seu pai, quando desaprovada
em público, experiência recalcada que face à semelhança de sentimentos lhe faz
retornar à cena traumática exigindo elaboração.
Chamamos
a atenção para a presença da memória que atua como dispositivo que trás a tona
as experiências traumáticas ao longo do percurso existencial, forçando uma
elaboração, a qual a mulher na posição de filha ficou impedida de realizar.
Esse
conflito que comporta vertentes múltiplas e ambivalentes, tem a presença de traços mnêmicos fundamentais na subjetivação
do feminino (grifo nosso): os protocolos adquiridos na relação mãe-filha.
A
complexidade e a força dos processos psicológicos presentes nessa situação é de
tal ordem que não é possível inferir qual a via de elaboração ou linha de fuga
será escolhida pela mulher.
Lembramos,
porém, da força dos protocolos transmitidos geracionalmente que levam a mulher
a priorizar o Outro.
Assim
sendo, o temor do julgamento alheio, tão enfatizado pela educação materna, pode
levá-la a tradicional expressão: ele
perdeu a cabeça!(grifo nosso). Nessa lógica do Outro pode também se
oferecer em holocausto para impedir que a violência física se estenda aos seus
filhos.
O
processo de mobilização para mudança do padrão relacional se torna mais
complexo ainda, se na posição de filha foi testemunha silenciada das agressões à
sua mãe. Esse silêncio, pleno de ditos e não ditos, pode ecoar através do
revide da agressão ao homem que ao agredi-la também agride sua mãe ou repetir o
comportamento na experiência traumática prévia: silenciar usando desculpas,
evitações e como última fronteira psíquica – naturalizações.
“Quando
alguma coisa está errada dentro de nós, procuramos a causa do lado de fora e
logo a encontramos” (GAY, 1995, p. 78).
Dentre
as estratégias de apaziguamento do conflito interno e externo, a mulher pode se
entregar à religião, doando seu poder de resolução pessoal a um elemento Divino
que solucionará por seu próprio poder o destino traçado para ela. Pode também
se tornar totalmente submissa às vontades e desejos do Outro, sujeitando-se às
suas determinações
Neste
ponto consideramos pertinente levantar duas indagações.
A
submissão na seria uma forma de não se responsabilizar por si mesma, tal qual
na relação mãe-filha? Renunciar a autonomia e a autodeterminação, reconhecendo
sua fragilidade psíquica não seria uma opção pela morte por mãos alheias?
‘A
total apatia, a falta de sentimentos e re-sentimentos, a incapacidade de
alegrar-se ou entristecer-se, de estar “cheio” de amor e cólera, de desejo, a
desaparição da passividade, entendida como espaço virtual e acolhedor para a
preservação do outro não equivaleria talvez à morte?” (BODEI, 1995, p. 11).
Não
pretendemos esgotar as plurais possibilidades contidas no comportamento
submisso da mulher frente à violência. Ressaltamos que a força dos protocolos
do ser mulher transmitidos na relação mãe-filha parece fazer com que seja
natural e inerente à natureza feminina o viver para o Outro, e,
consequentemente, abdicar da autonomia e autocontrole. Esses protocolos são
processos construídos por tradições e valores sociais que instituem uma
hierarquia onde a mulher só tem seu reconhecimento e sua identidade se
confirmada pelo Outro, sua mãe, seu pai, seu cônjuge, seu parceiro. Em
atendimento aos protocolos recebidos, ela deve dar direção e sentido a sua
existência na busca de uma relação que a constitua como mulher.
Consideramos
importante sublinhar que não há maior submissão e servidão do que repetir, já
na idade adulta, a experiência infantil de ter assegurada a existência física,
moral e psíquica pelo Outro, mesmo que este não faça uso dessa apropriação de
forma violenta ou perversa.
Especificamente
em relação à submissão da mulher à violência parece haver uma promessa de
atendimento aos protocolos transmitidos na relação mãe-filha.
“Senão
nos obrigássemos a cumprir promessas, jamais seríamos capazes de conservar
nossa identidade; seríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas
trevas do coração de cada homem, enredados em suas contradições e equívocos –
trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença dos outros, que
confirma a identidade entre o que promete e o que cumpre, poderia
dissipar”(ARENDT, 1989, P. 249).
Uma
promessa que mantém presente o referencial que educou, cuidou e forjou o ser
mulher.
Referências Bibliográficas
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