TRANSGERACIONALIDADE:
HERANÇA PSÍQUICA E MANUTENÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE CONTROLE MANIPULATIVO DA MULHER
NAS RELAÇÕES AFETIVAS
Profª Me. Maria de Fátima
Scaffo
Profº Dr. Francisco Ramos de
Farias
Palavras-Chave: Transgeracionalidade,
Herança Psíquica, Controle nas Relações Afetivas.
As
projeções dos pais em relação aos filhos, independente do sexo, são diferentes
e têm início antes do seu nascimento. No que tange aos filhos homens, é
comumente esperado que estes sejam competitivos, fortes e que superem as
dificuldades enfrentadas pelos próprios pais. No entanto, a restrição e
direcionamento quanto ao papel social que a filha desempenhará no futuro, une
os pais nas etapas de seu desenvolvimento. Para as meninas é ensinada a
docilidade, meiguice, fragilidade, enfim, brincadeiras mais sedentárias, e que
em sua maioria prefiguram o papel social que desempenharão no futuro
(KOLBENSCHLAG, 1991, p. 27).
Como
administradora desta educação, a mãe passará grande parte do seu tempo ao lado
de sua filha, modelando suas manifestações comportamentais, ou seja,
transmitindo-lhe protocolos que incluem papéis, preconceitos, interditos
morais, etc.
Desta
forma a aprendizagem dos protocolos de gênero transmitidos de mãe para filha se
torna o principal aspecto na formação da subjetividade feminina.
Conforme
assinala Kolbenschlag (1991, p. 61):
(...) sem uma relação
íntima, desde o começo da vida, com uma figura materna, não podemos ter
identidade, não podemos elaborar nenhuma sensação de nós “mesmos”. Contudo,
sempre há o risco da destrutividade inerente a essa relação, que pode aleijar e
deformar a próprio self que cria.
Estes
protocolos impregnados pela concepção do patriarcado, exercidos primeiramente
no seio familiar, não só reduzem as possibilidades de escolhas de como ser,
como inculcam modelos universalistas e assimétricos. Tal discurso carregado de
silêncios e ocultações hierarquiza o lugar da mulher na sociedade, alocando-a
na esfera privada, cuidando dos filhos e do marido, inibe iniciativas de
realização profissional, naturaliza as desigualdades entre os gêneros, levando
a mulher à marginalidade social. Presa ao lugar que lhe é destinado pelo
discurso da natureza feminista, a mãe-mulher produz e reproduz suas memórias e
significações para a filha-mulher: processo que se tornará pilar na
subjetivação do feminino. Na transmissão de sua história não há necessariamente
a busca do que é verdadeiro, mas a alimentação de estereótipos que visam à
localização do homem e da mulher no cenário social. Desta forma observamos que
as exigências protocolares relativas ao espaço privado – família incidem muito
mais sobre a mulher. A aderência às normas e costumes familiares que se
organiza em torno da mãe pela dependência e em torno do pai pela obediência,
torna a mulher-filha herdeira de uma cultura de subordinação e desvalorização.
Ao receber prescrições que atravessam gerações de lugar secundário, a mulher
desenvolve altíssimo grau de identificação com um passado formatado por
concepções patriarcais, cujo relevo atravessa seu imaginário, não lhe
permitindo discernir se o traço identitário é fruto de uma memória herdada.
Esta assunção dos protocolos de gênero transmitidos pela mãe faz com que seja
estabelecido um pacto, por vezes silencioso, entre filha e mãe, de manutenção
do enquadramento comportamental.
Na
relação mãe-filha, a mãe é senhora da memória e do esquecimento. Portanto,
através da produção discursiva materna, na construção do ser mulher da filha,
ficam evidentes as escolhas maternas entre os ditos – não ditos, silêncios,
esquecimentos, afirmações e negações. Assim, “a função da lembrança é conservar
o passado na forma que é mais apropriada a ele, ou seja, só fica o que
significa” (BOSI, 1979, p. 384).
Sendo
assim, a força discursiva materna inclui a filha num processo de enquadramento
social que transcende a individualidade, e, consequentemente, nega a diferença,
impondo homogeneidade ao feminino. Estas imposições implícitas ou explícitas
regulam a socialização que cada nicho social produz para aquele sujeito. No
caso da mulher, a subjetivação das funções é marcada pela ambiguidade do
discurso materno, pois: “por um lado, educa-se as a meninas para que esperem o
príncipe encantado e, por outro, elas são orientadas a se portarem contra todos
os demais homens” (HIRIGOEN, 2008, p. 63).
Tal
ambiguidade discursiva, que por um lado prepara a mulher para representar a
personagem da princesa encantadora, atrativa, amável e compreensiva, por um
lado a faz antagonicamente buscar se proteger de um perigo que não aprendeu a
reconhecer, mas somente respeitar. Nessa teia, a autenticidade e capacidade de
filtrar e reagir aos autênticos e reais perigos ficam minadas, resultando em
sublimação de sua assertividade e objetividade. A instrução para desempenhar o
papel de viver a espera de alguém e viver para este Outro, a faz esquecer-se de
si mesma e aceitar decisões ao invés de tomá-las.
Recorremos
a Hirigoyen (2008, p. 64) para ratificar nossa afirmação:
As mulheres forjam um
“eu ideal” em função das normas sociais veiculadas por sua família e a
sociedade. Por isso, algumas, seguindo o modelo da mãe disponível e solícita,
pensam que, para conservar um homem, terão que demonstrar abnegação e
submissão. Tendo aprendido, ainda muitos jovens, que para merecer o amor de
seus pais devem ser úteis e relegar a sua felicidade, a segundo plano, em prol
da felicidade dos outros colocando a mercê do Outro.
Ressaltamos
que ser para o outro, prescrição explícita no discurso materno, envolve não só
uma mentalidade casamenteira, a demarcação do lugar feminino e suas
atribuições, mas instala uma concepção de sexualidade que exige a passividade
erótica da mulher na conjugalidade (ROCHA COUTINHO, 1994). Assim, a identidade
feminina se dá através da construção discursiva materna que transcende as
particularidades das individualidades femininas. Desta forma, as
heterogeneidades são dissolvidas, e, os aspectos singulares passam a integrar
um todo generalizado que consolida a natureza feminina, cujo eixo básico
envolve: afetividade, carência, dependência, submissão e intuição. Esta
“natureza” é inscrita em processos mais amplos, ou seja, para além do espaço
privado familiar, que a valoriza, vinculando-a a capacidades estabelecidas
socialmente para a mulher de família. Esta, espelho de sua mãe, tem o casamento
e a maternidade como destino. A exemplo de sua mãe torna-se a primeira
educadora de seus filhos, transmitindo-lhes os comportamentos que asseguram a
organização social da qual faz parte. Ressaltamos que cada processo de
transmissão protocolar aos descentes evidencia a associação emocional a
programação recebida da geração antecedente.
A
submissão à memória herdada da mãe implicará na reprodução do modelo de
relacionamento dos pais. Desta forma, os traços mnêmicos experimentados no
lugar de filha, se interpõem ao fluxo do momento presente impondo a necessidade
de elaboração do legado que lhe foi transmitido. A não elaboração das vivências
passadas, ou melhor, a não atualização dos scripts que constituíram seus traços
identitários poderão causar consequências extremamente nocivas para si própria,
e, consequentemente, para o seu relacionamento conjugal. A permanência nessa
condição transforma sua relação com amigos, cônjuges, dentre outros, uma forma
incessante obter aprovação, reconhecimento nos moldes da relação materna. A
compulsão em receber aceitação e aprovação, semelhantes à condição de filha,
efeito nocivo dos protocolos memorizados, leva a mulher a desenvolver culpa e
ressentimento, em especial no âmbito da relação conjugal. Dessa forma, ao
abdicar da responsabilidade pela auto-realização, cria um vácuo existencial que
procura preencher limitando-se ao papel de reprodutora e guardiã do lar.
Quanto
a isso, Kolbenschlag (1991, p. 77), lembra que “as filhas repetem a vida
emocional das mães e a mãe pode cobrar tributo pela dedicação, educação e
proteção da filha: pensar igual a ela, agir igual a ela, ser igual a ela e
realizar o que ela não conseguiu”. Essa cobrança explícita ou não, tem o mesmo
potencial deletério na vida psíquica da filha que oscila entre o atendimento ao
que a natureza lhe destinou ou pagar o preço do afastamento do dom inato para
ser feliz como mãe de família.
Cabe
lembrar, que as duas condições citadas não escapam à armadilha cultural para a
mulher. A dinâmica da perpetuação das características do feminino transmitidas
pela educação materna ultrapassa o âmbito da relação primária mãe-filha, e, são
efetivamente reforçadas por todas as instituições sociais. Essas instituições
reforçam a repetição dos protocolos, principalmente em relação à maternidade,
freando os possíveis desejos de transcendência através de estereótipos de
rejeitadas, incompletas e desnaturadas. Assolada pelos desapontamentos
familiares e sociais, a mulher se vê coibida pelas pressões institucionais que
negam sua auto-realização através da individualidade. A ausência de
autodeterminação ocasionada por uma existência de dependência emocional causa
efeitos nocivos óbvios na conduta feminina.
É
comum o aparecimento de disfunções psíquicas, entre as quais destacamos as
depressões, compulsões alimentares, insônia, instabilidade humoral, todas
associadas a uma série de temores. “Algumas se tornam comatosas, passivas,
apresentando aparente insatisfação com seu papel herdado” (KOLBENSCHLAG, 1991,
p. 40).
O
caminho que leva ao afastamento dos protocolos de gênero também se apresenta
árido e hostil. Lembramos que a internalização dos protocolos transmitidos na
relação mãe-filha são oriundos das mensagens anteriormente recebidas, e,
envolvem no mínimo três gerações. São transações que tomam por base
significados e crenças de uma comunidade, classe social, organização política,
parentesco e religião.
Portanto,
romper com os protocolos é romper com a memória coletiva predominante no qual
as memórias fazem referência. Aqui nos reportamos a Halbwachs (1968, p. 21)
para quem:
A concepção da função
primordial da memória, enquanto imagem compartilhada do passado que é a de
promoção de um laço de afiliação entre os membros de um grupo com base no seu
passado coletivo, conferindo-lhe uma ilusão de imutabilidade, ao mesmo tempo,
que cristaliza os valores e as acepções predominantes do grupo ao qual as
memórias se referem.
Retomando
a questão do afastamento dos paradigmas impostos à mulher e suas consequências,
ressaltamos que outros conflitos advindos das pressões externas se instalam.
Nessas circunstâncias a mulher é vista de forma distorcida e negativa. Em
decorrência disso, diferentes estratégias de controle são empregadas tanto pela
mãe como por diferentes instituições, visando restringir ou mesmo enquadrar a
mulher em sua posição na ordem social. Sob esse aspecto, vale salientar que:
(...), controle,
influência e poder são partes das expectativas que a sociedade desenvolveu
sobre os diferentes papéis associados ao sexo. Uma vez que estas expectativas
sociais regulam o modo como as pessoas se comportam, assim como a forma como o
comportamento dos outros é avaliado, elas afetam tanto a maneira como as
pessoas usam estas estratégias para controlar os demais, quanto a maneira como
as pessoas reagem às estratégias utilizadas por estes (ROCHA-COUTINHO, 1994,
p.127).
Em
resposta a essas pressões a mulher pode desenvolver diferentes atividades
compensatórias. Por exemplo, o comportamento de aquisição de bens de consumo
como forma de demonstração de autonomia, tomada de decisão e poder. O
consumismo causando sensação de mobilidade, exercício de escolha e
gerenciamento econômico provoca a ideia de auto sustentação, sensação compensatória
para o baixo nível de auto realização. Essas manobras que visam assegurar o
poder de auto realização de forma diversa do papel que prescrito, são
mecanismos de esquiva-desvio do sentimento de opressão e desamparo, que o
afastamento do desempenho do papel de mãe de família lhe causa.
A
concepção do que é ser mulher é intuída pela filha através da aprendizagem, ou
melhor, da leitura dos sinais ambivalentes maternos que a estimulam à auto suficiência,
à realização dos projetos da mãe enquanto mulher, à escolha seu destino, e
antagonicamente dar continuidade a existência materna procriando.
Fica
claro que os protocolos recebidos pela mãe não lhe permitem escolhas, ao
contrário, direcionam para gestar um outro, antes de si mesma.
Presa
a armadilha da repetição protocolar, a mulher abdica de sua realização pessoal
esperando gratificação e reconhecimento do seu sacrifício em favor de um outro.
Essa autoviolência naturalizada pelas prescrições geracionalmente transmitidas,
podem torná-la frágil e submissa às violências que lhe perpetradas, por pessoas
com as quais estabelece laços identitários e afetivos para formação de sua
família, na qual ela espera reinar como sua mãe. Portanto, a construção da
mulher tem como protocolo principal o espaço privado da família e a
maternidade. Como já aludimos anteriormente, a educação voltada para o outro
promove autoesquecimento, e, consequente autodesvalorização, o que permite ao
outro se tornar hierarquicamente superior. Essa assimetria característica das
relações de gênero afirma dualismos que persistem por diversas gerações.
Portanto,
antes de constituir a família tão idealizada pelos protocolos de gênero, a
mulher já apresenta um altíssimo nível de fantasia, estimulada pela concepção
romanceada de “e viveram felizes para sempre”. Porém, nem mesmo a permanência
em segundo plano, lugar aprendizagem através da transgeracionalidade garantirá
a proteção e segurança tão sonhadas.
Referências Bibliográficas
BOSI,
E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiróz, 1979.
HALBWACHS, M. La mémorie collective. Paris:
Presses Universitaires de France, 1968.
HIRIGOYEN, MARIE-FRANCE.
Mujeres Maltratadas: Los Mecanismos de La violence em La pareja. Buenos Aires:
Paidós, 2008.
KOLBENSCHLAG, M. Adeus, Bela
Adormecida: A revisão do papel da mulher nos dias de hoje. São Paulo: Saraiva, 1991.
ROCHA
COUTINHO. M. L. TECENDO POR TRÁS DOS PANOS – A mulher brasileira nas relações
familiares. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
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