sábado, 21 de julho de 2012

Publicado na Revista Interthesys - A transmissão dos protocolos de gênero como dispositivo de submissão feminina à violência conjugal


A transmissão dos protocolos de gênero como dispositivo de submissão feminina à violência conjugal
*Francisco Ramos de Farias
**Maria de Fátima Scaffo
Resumo: Este artigo analisa a maneira pela qual a mulher, historicamente, responde, no cenário familiar, à violência conjugal. Em princípio, o recorte, adotado como objeto de estudo e análise, consiste em uma modalidade típica de violência impetrada à mulher no contexto das engrenagens que configuram o encontro homem-mulher. Aponta os fatores potencializados nesse encontro que produzem a violência, aventado a possibilidade de se refletir sobre aspectos da condição masculina ou em fantasmas do universo feminino. Considerando a questão de gênero levanta-se a seguinte indagação: a posição da mulher é construída em função dos princípios educativos que condicionam um determinado tipo de papel à mulher ou existem outros determinantes? A análise e discussão dessa temática será realizada, considerando a transmissão geracional de normas-protocolos de gênero de mãe para filha, bem como a constante reedição, de forma irrefletida, que se constitui como raízes modeladoras da conduta da mulher e que fazem parte da dinâmica do  feminino nas relações de gênero, nas quais a mulher ocupa historicamente um plano subalterno. Provavelmente, a condição de subalternidade reflete a transmissão pela mãe para a filha de padrões estereotipados culturalmente atribuídos à mulher e que são aceitos e reproduzidos, de forma quase automática, no cenário das relações conjugais.
Palavras-Chave: violência. conjugal. protocolos. submissão. feminina.
The transmission protocols of gender as female submission device to marital violence
Abstract:
This article examines the way in which women historically replies, family background, marital violence. In principle, the snip, adopted as an object of study and analysis, consists of a typical mode of violence to the woman filed in the context of the cogs that make up the encounter between men and women. Points out the factors that exacerbated the meeting that produce violence, raised the possibility of reflecting on aspects of male condition in ghosts or the feminine universe. Considering the gender issue raises the following question: the position of women is constructed based on educational principles that affect a particular type of role to women or there are other determinants? The analysis and discussion of this theme will be carried out, considering the generational transmission of norms of gender-protocols from mother to daughter and the constant reissue, so thoughtless, that constitutes the root of the shaping and conduct of women who are part of the dynamics of feminine in gender relations, in which the woman occupies a historically subordinate plan. Probably reflects the condition of inferiority by transmission from mother to daughter stereotyped patterns culturally assigned to women and that are accepted and replicated, almost automatically, in the setting of marital relations.
Keywords: violence. marriage. protocols. submission. female.
Los protocolos de transmisión de género como dispositivo de sumisión de la mujer a la violencia conyugal
Resumen
Este artículo examina la forma en que las mujeres históricamente respuestas, los antecedentes familiares, la violencia conyugal. En principio, el recorte, adoptado como un objeto de estudio y análisis, consiste en un modo típico de la violencia a la mujer presentada en el contexto de los engranajes que componen el encuentro entre hombres y mujeres. Señala los factores que exacerbaron la reunión que generan violencia, planteó la posibilidad de reflexionar sobre los aspectos de la condición masculina en los fantasmas o el universo femenino. Teniendo en cuenta la cuestión de género plantea la siguiente cuestión: la situación de las mujeres se construye sobre la base de los principios educativos que afectan a un determinado tipo de papel que la mujer o hay otros factores determinantes? El análisis y la discusión de este tema se llevará a cabo, teniendo en cuenta la transmisión generacional de las normas de género protocolos de madre a hija y la reedición constante, de manera irreflexiva, que constituye la raíz de la formación y el desarrollo de las mujeres que forman parte de la dinámica de femenino en las relaciones de género, en los que la mujer ocupa un plan históricamente subordinados. Probablemente refleja la condición de inferioridad por la transmisión de madre a hija estereotipados patrones culturalmente asignados a las mujeres y que se aceptan y se replica, casi automáticamente, en el marco de las relaciones conyugales.
Palabras claves: la violencia. el matrimonio. protocolos. presentación. femenino.

Introdução
Este artigo objetiva analisar a posição da mulher frente à violência conjugal, buscando possíveis articulações com campo interdisciplinar da memória. Contudo, daremos a esta análise um recorte ainda pouco explorado nas investigações sobre posição da mulher frente à violência: a transmissão de protocolos de gênero de mãe para filha.
Uma das razões que nos leva a percorrer este caminho é o fato desta relação abrigar fronteiras psíquicas muito tênues, por isto, campo fértil para várias identificações e reedições que passam despercebidas para ambas.
A hipótese lançada nesta discussão é que embora seja atualizada pelos atravessamentos sociais, produtores de novas demandas, a dupla mãe-filha, reedita na geração seguinte o que foi vivido na geração anterior. Portanto, a transmissão de protocolos de gênero de mãe para filha pode se constituir num forte indicativo para a manutenção da subordinação feminina versus opressão masculina.
Chodorow (1978 apud GIFFIN, 1994, p. 152) argumenta que as meninas desenvolvem sua identidade de gênero no contexto da identificação com a mãe, numa relação continuada com ela. Sendo a educação dos filhos circunscrita ao espaço privado, contexto desvalorizado face ao público, a mãe responsável pela criação dos filhos, também se torna desvalorizada socialmente. A menina, ao se identificar com o outro (a mãe) desvalorizado, passa a ocupar o lugar da vulnerabilidade, da baixa-estima e, conseqüente dependência.
Vianna et al (2006, p. 14) ressalta que o conceito de dependência inclui diferentes tipos de fenômenos, entre eles a submissão – incapacidade da mulher se manter. Ainda para estas autoras o fenômeno da submissão condiciona a mulher em função do Outro; e a dependência faz com se ajuste ao que o outro espera dela por medo de abandono. Quanto a esta posição, Benjamin (1990, p. 57) argumenta que será refletida em outras relações, onde: “a posição do homem é de fazer da mulher um objeto, tanto na sua violência contra ela como no seu autocontrole racional. Já a posição da mulher é de se sentir um objeto passivo e aceitar sua falta de controle”.
Vianna, et al (2006, p. 16) no que tange ao comportamento da mulher relegar suas necessidades afetivas a segundo plano ressaltam: “É exatamente aqui que acontece a vivência do vazio interior como sensação de carência e confusão que as faz se sentirem débeis, fracas e tender a estar compulsivamente dependendo de outra pessoa”, terreno fértil para a violência de gênero (grifo nosso).
A noção de gênero vem muitas vezes sendo confundida com a idéia de sexo feminino, quando em realidade surgiu exatamente para destacar essa distinção (D’OLIVEIRA, 1999).
 Gênero é um constructo abstrato, um princípio de classificação que intensifica a apreensão da complexidade das relações sociais. Mead (1979) afirmava serem os conceitos de gênero principalmente culturais e não biológicos - idéias revolucionárias que só recentemente, através do movimento feminista, receberam atenção.
A discussão sobre categoria de análise gênero reconsiderou todos os constructos binários baseados na diferença biológica que naturalizava a opressão masculina versus subordinação feminina. No entanto, no campo das relações sociais, em especial, nas relações conjugais, onde a violência continua ocorrendo em ampla escala, ainda se constata a universalidade da opressão masculina e a conivência social com a dominação e a violência contra a mulher. Compreender o fenômeno violência contra a mulher exige uma análise multifatorial que contemple a diversidade de aspectos estruturais (economia, sociedade, cultura), históricos (grupos sociais e sua localização num tempo histórico-social) e conjunturais (contexto no qual a violência se expressa).
A violência contra a mulher é tecida pelas dimensões de gênero, que por sua vez se encontram espelhadas nas formas discursivas e no sistema de valores que circunscrevem o feminino como frágil, com menor capacidade de racionalidade, pertencente a um “plano de fundo”. Estas introjeções não operam apenas na ordem simbólica, mas, sobretudo, estruturam lugares sociais que potencializam relações historicamente marcadas pela desigualdade entre homens e mulheres, fenômeno que atinge a todas as classes sociais, etnias, religiões e culturas, ocorrendo em populações de diferentes níveis de desenvolvimento econômico e social.
As concepções do que é ser homem ou mulher, cuja transmissão geracional ocorre através da memória, ainda se encontram impregnadas pelo padrão patriarcal, cujo binarismo - virilidade agressiva natural do homem e a passividade masoquista da mulher, conferem ao amálgama da submissão feminina certa naturalidade.
Retomando a hipótese proposta no início deste ensaio, discutiremos a seguir a transmissão de protocolos de gênero de mãe para filha, considerando este processo como um indicativo para a manutenção da subordinação feminina frente ao masculino.
A construção do ser mulher marcado por memórias ancestrais
Ser mulher é resultado de uma intrincada rede de significações sociais que remete, às inúmeras representações: papéis, modelos de comportamentos, preconceitos, interditos morais, dentre outros.
Estes protocolos impregnados pela concepção do patriarcado, exercidos primeiramente no seio familiar, não só reduzem as possibilidades de escolhas de como ser, como inculcam modelos universalistas e assimétricos.
D’Avilla Neto (1994, p. 39) chama atenção para esse aspecto: “A família, criando diferentes papéis para seus membros, bloqueia as condições necessárias para que se possa assumir livremente a identidade”. Giffin (1994) identifica a família como a principal instituição que organiza as relações sexuais entre gêneros.
Como lócus onde o controle social atua diretamente sobre o corpo da mulher através de proibições, punições e compensações, demarca a assimetria de poder entre o homem e a mulher, cuja identidade principal é a de mãe. Neste espaço privado, a mulher-mãe é responsável pela construção de moldura estreita para as meninas e incentivo à autonomia e realização profissional para os meninos, repetindo de forma inconsciente ou não, o discurso ideológico da divisão social papéis entre o público e o privado.
Tal discurso carregado de silêncios e ocultações hierarquiza o lugar da mulher na sociedade, alocando-a na esfera privada, cuidando dos filhos e do marido, inibe iniciativas de realização profissional, naturaliza as desigualdades entre os gêneros, levando a mulher à marginalidade social.
Para Rocha-Coutinho (1994) o processo de sentimentalização do espaço familiar, que confinou a mulher ao lar, também outorgou a ela uma forma de poder sobre os bens “simbólicos” – os filhos. Para estes, “ela se torna produtora de sentido, nomeadora de seus atos e sentimentos, produtora de mandos e dúvidas” (op. cit., p. 39). Essa produção fruto de experiências no lugar de filha, ao ser transmitida pode ser suavizada em nome do projeto que aprendeu a defender: a manutenção da família unida. Mantê-la é não fracassar diante da própria mãe e da sociedade, é cumprir um papel atribuído a sua natureza: natureza voltada para o Outro.
Presa ao lugar que lhe é destinado pelo discurso da natureza feminina, a mãe-mulher produz e reproduz suas memórias e significações para a filha-mulher: processo que se tornará pilar na subjetivação do feminino. Na transmissão de sua história não há necessariamente a busca do que é verdadeiro, mas a alimentação de estereótipos que visam à localização do homem e da mulher no cenário social. “Las madres contribuyen a alimentar estos esteretipos educando su hijos para que sean valintes, (...) a lãs hijas a ser dulces (...) y a centrar-se em lãs necesidades de los demás (HIRIGOEN, 2008, p. 58).
Desta forma observamos que as exigências protocolares relativas ao espaço privado – família, incidem muito mais sobre a mulher. A aderência às normas e costumes familiares que se organiza em torno da mãe pela dependência e em torno do pai pela obediência, torna a mulher-filha herdeira de uma cultura de subordinação e desvalorização. Ao receber prescrições que atravessam gerações de lugar secundário, a mulher desenvolve altíssimo grau de identificação com um passado formatado por concepções patriarcais, cujo relevo atravessa seu imaginário, não lhe permitindo discernir se o traço identitário é fruto de uma memória herdada. Esta assunção dos protocolos de gênero transmitidos pela mãe faz com que seja estabelecido um pacto, por vezes silencioso, entre filha e mãe de manutenção do enquadramento comportamental.
Na relação mãe-filha, a mãe é senhora da memória e do esquecimento. Portanto, através da produção discursiva materna, na construção do ser mulher da filha, ficam evidentes as escolhas maternas entre os ditos – não ditos, silêncios, esquecimentos, afirmações e negações. “A função da lembrança é conservar o passado na forma que é mais apropriada a ele, ou seja, só fica o que significa” (BOSI, 1979, p. 384).
Sendo assim, a força discursiva materna inclui a filha num processo de enquadramento social que transcende a individualidade, e, consequentemente, nega a diferença, impondo homogeneidade ao feminino. Estas imposições implícitas ou explícitas regulam a socialização que cada nicho social produz para aquele sujeito. No caso da mulher, a subjetivação das funções é marcada pela ambiquidade do discurso materno. “Por um lado, se educa a lãs niñas para que esperen al príncipe encantado y, por outro lado, se lãs pone em guardiã contra todos los demás hombres” (HIRIGOEN, 2008, p. 63).
Tal ambiguidade discursiva, que por um lado prepara a mulher para representar a personagem da princesa encantadora, atrativa, amável e compreensiva, por um lado a faz antagonicamente buscar se proteger de um perigo que não aprendeu a reconhecer, mas somente respeitar. Nessa teia, a autenticidade e capacidade de filtrar e reagir aos autênticos e reais perigos ficam minadas, resultando em sublimação de sua assertividade e objetividade. A instrução para desempenhar o papel de viver a espera de alguém e viver para este Outro, a faz esquecer-se de si mesma e aceitar decisões ao invés de tomá-las.
Recorremos a Hirigoyen (op. cit., p. 64) para ratificar nossa afirmação:
“Las mujeres se forjan un <<yo ideal>> em función de las normas sociales vehiculadas por su família y la sociedad. Por eso algunas, siguiendo el modelo de la madre disponible y entregada, piensan que, para conservar a un hombre, hay que demostra abnegación y sumisión. Al haber aprendido muy jóvenes que para merecer El amor de sus padres debían ser útiles y poner la felicidad delos demás por delante de la suya, hacen demasiado por el outro”.

Ressaltamos que ser para o Outro, prescrição explícita no discurso materno, envolve não só uma mentalidade casamenteira, a demarcação do lugar feminino e suas atribuições, mas instala uma concepção de sexualidade que exige “a passividade erótica da mulher na conjugalidade”(ROCHA COUTINHO, 1994). Deserotizada, intensifica a fantasia, reprime seus desejos, e reforça a autovigilância atendendo às expectativas das qualidades atribuídas a ela.
Desta forma, as heterogeneidades são dissolvidas, e, os aspectos singulares passam a integrar um todo generalizado que “consolida a natureza feminina” (grifo nosso), cujo eixo básico envolve: afetividade, carência, dependência, submissão e intuição. Esta “natureza” é inscrita em processos mais amplos, ou seja, para além do espaço privado familiar, que a valoriza, vinculando-a a capacidades estabelecidas socialmente para a mulher de família. Esta, espelho de sua mãe, tem o casamento e a maternidade como destino. A exemplo de sua mãe torna-se a primeira educadora de seus filhos, transmitindo-lhes os comportamentos que asseguram a organização social da qual faz parte. Ressaltamos que cada processo de transmissão protocolar aos descentes evidencia a associação emocional a programação recebida da geração antecedente. Ao ficar colada ao discurso materno, portanto da geração que a antecede, a mulher abdica de criar sua própria existência.
A submissão à memória herdada da mãe implicará na reprodução do modelo de relacionamento dos pais. Desta forma, os traços mnêmicos experimentados no lugar de filha, se interpõem ao fluxo do momento presente impondo a necessidade de elaboração do legado que lhe foi transmitido. A não elaboração das vivências passadas, ou melhor, a não atualização dos scripts que constituíram seus traços identitários poderão causar conseqüências extremamente nocivas para si própria, e, consequentemente, para o seu relacionamento conjugal.
A seguir apresentaremos algumas dessas conseqüências, dentre tantas, ocasionadas pela assunção irrefletida dos protocolos de gênero transmitidos geracionalmente pela dupla mãe-filha.  
Condicionamento protocolar: algumas conseqüências
A aprendizagem dos protocolos de gênero transmitidos de mãe para filha forma a subjetividade feminina.
“(...) sem uma relação íntima, desde o começo da vida,          com uma figura materna, não podemos ter identidade, não podemos elaborar nenhuma sensação de nós “mesmos”. Contudo, sempre há o risco da destrutividade inerente a essa relação, que pode aleijar e deformar a próprio self que cria.” (KOLBENSCHLAG, 1991, p. 61).

         As projeções dos pais em relação aos filhos, independente do sexo, são diferentes e têm início antes do seu nascimento. No entanto, a restrição e direcionamento quanto ao papel social que a filha desempenhará no futuro, une os pais nas etapas de seu desenvolvimento. Como administradora desta educação, a mãe passará grande parte do seu tempo ao lado de sua filha, modelando suas manifestações comportamentais. Essa questão pode ser uma explicação para a mulher apresentar recato e pudor em relação ao seu próprio corpo. Nessa relação a filha é estimulada desde cedo à simbiose materna, condição que pode perdurar por toda existência em função de seu frágil autoconceito.  A permanência nessa condição transforma sua relação com amigos, cônjuges, dentre outros, numa forma incessante obter aprovação, reconhecimento nos moldes da relação materna. A compulsão em receber aceitação e aprovação, semelhantes à condição de filha, efeito nocivo dos protocolos memorizados, leva a mulher a desenvolver culpa e ressentimento, em especial no âmbito da relação conjugal.
          Ao abdicar da responsabilidade pela auto-realização, cria um vácuo existencial que procura preencher limitando-se ao papel de reprodutora e guardiã do lar.
Para Kolbenschlag (op. cit.) “as filhas repetem a vida emocional das mães. Ainda para esta autora “a mãe pode cobrar tributo pela dedicação, educação e proteção da filha: pensar igual a ela, agir igual a ela, ser igual a ela e realizar o que ela não conseguiu”. Essa cobrança explícita ou não, tem o mesmo potencial deletério na vida psíquica da filha que oscila entre o atendimento ao que a natureza lhe destinou ou pagar o preço do afastamento do dom inato para ser feliz como mãe de família (grifo nosso).
Ressaltamos que as duas condições citadas não escapam à armadilha cultural para a mulher. A dinâmica da perpetuação das características do feminino transmitidas pela educação materna, ultrapassa o âmbito da relação primária mãe-filha, e, são efetivamente reforçadas por todas as instituições sociais. Essas instituições reforçam a repetição dos protocolos, principalmente em relação à maternidade, freando os possíveis desejos de transcendência através de estereótipos de rejeitadas, incompletas e desnaturadas.
Assolada pelos desapontamentos familiares e sociais, a mulher se vê coibida pelas pressões institucionais que negam sua auto-realização através da individualidade.
A ausência de auto-determinação ocasionada por uma existência de dependência emocional causam efeitos nocivos óbvios na conduta feminina.
São comuns o aparecimento de disfunções psíquicas, entre as quais destacamos as depressões, compulsões alimentares, insônia, instabilidade humoral, todas associadas a uma série de temores. Algumas se tornam comatosas, passivas, apresentando aparente satisfação com seu papel herdado.
O caminho que leva ao afastamento dos protocolos de gênero também se apresenta árido e hostil.
Lembramos que a internalização dos protocolos transmitidos na relação mãe-filha são oriundos das mensagens anteriormente recebidas, e, envolvem no mínimo três gerações. São transações que tomam por base significados e crenças de uma comunidade, classe social, organização política, parentesco e religião.
Portanto, romper com os protocolos é romper com a memória coletiva predominante no qual as memórias fazem referência.
“A concepção da função primordial da memória, enquanto imagem compartilhada do passado que é a de promoção de um laço de afiliação entre os membros de um grupo com base no seu passado coletivo, conferindo-lhe uma ilusão de imutabilidade, ao mesmo tempo, que cristaliza os valores e as acepções predominantes do grupo ao qual as memórias se referem” (HALBWACHS, 1968, p. 21).

        Retomando a questão do afastamento dos paradigmas impostos à mulher e suas conseqüências, ressaltamos que outros conflitos advindos das pressões externas se instalam. Nessas circunstâncias a mulher é vista de forma distorcida e negativa. Em decorrência disso, diferentes estratégias de controle são empregadas tanto pela mãe como por diferentes instituições,visando restringir ou mesmo enquadrar a mulher em sua posição na ordem social.
“(...), as controle, influência e poder são partes das           expectativas que a sociedade desenvolveu sobre os diferentes papéis associados ao sexo.Uma vez que estas expectativas sociais regulam o modo como as pessoas se comportam, assim como a forma como o comportamento dos outros é avaliado, elas afetam tanto a maneira como as pessoas usam estas estratégias para controlar os demais, quanto a maneira como as pessoas reagem às estratégias utilizadas por estes” (ROCHA-COUTINHO, 1994, p.127).

Em resposta a essas pressões a mulher pode desenvolver diferentes atividades compensatórias. Por exemplo, o comportamento de aquisição de bens de consumo como forma de demonstração de autonomia, tomada de decisão e poder. O consumismo causando sensação de mobilidade, exercício de escolha e gerenciamento econômico provoca a idéia de auto-sustentação, sensação compensatória para o baixo nível de auto-realização.
Essas manobras que visam assegurar o poder de auto-realização de forma diversa do papel que lhe foi prescrito, são mecanismos de esquiva-desvio do sentimento de opressão e desproteção, que o afastamento do desempenho do papel de mãe de família lhe causa.
A concepção do que é ser mulher é intuída pela filha através da aprendizagem, ou melhor, da leitura dos sinais ambivalentes maternos que a estimulam à auto-suficiência, à realização dos projetos da mãe enquanto mulher, à escolha seu destino, e antagonicamente dar continuidade a existência materna procriando.
Fica claro que os protocolos recebidos pela mãe não lhe permitem escolhas. Ao contrário direcionam para gestar um Outro antes de si mesma.
Presa a armadilha da repetição protocolar, a mulher abdica de sua realização pessoal esperando gratificação e reconhecimento do seu sacrifício em favor de um Outro. Essa auto-violência naturalizada pelas prescrições geracionalmente transmitidas, a tornam submissa às violências que lhe perpetradas por pessoas com as quais estabelece laços identitários e afetivos para formação de sua família na qual reinará como mãe.
Condicionamento protocolar e submissão diante da violência
Como vimos a construção da mulher tem como protocolo principal o espaço privado da família e a maternidade.
Diversos estudos apontam que a argumentação tradicional tenta explicar a diferença entre o masculino e o feminino pela maternidade, dependência e valores domésticos. Diferentemente dos outros fatores, a dependência tem sido identificada como um dos grandes, se não um dos maiores obstáculos para a autonomia e avanço das mulheres. Nessa discussão a questão econômica ganha maior destaque, uma vez que, baseada na divisão pelo sexo, a sociedade valoriza mais o homem em termos de remuneração salarial, cargos de chefia, entre outros benefícios.
Podemos então inferir que a dependência financeira e afetiva da mulher se dá em função da baixa-estima fruto da força social dos protocolos de gênero?
Vianna et al (2006, p. 15) sobre a questão ressaltam que:
“o conceito de dependência costuma incluir diferentes tipos de fenômenos, entre eles aquele que significa submissão, ou seja, a incapacidade da mulher se manter, condicionando-a em função do outro, e a dependência que faz com que a mulher se ajuste ao que outra pessoa espera dela por medo de abandono. \por outro lado, a dependência pode advir da necessidade que se tem de outra pessoa para cobri as carências afetivas. Enquanto a dependência é uma trava para a libertação das mulheres, a carência é inerente a condição do ser social. Ou seja, a necessidade afetiva não pode ser confundida com a ausência de autonomia que tem posto as mulheres numa relação de submissão no espaço público e privado”.

Em concordância com as autoras, esclarecemos que para o alcance da autonomia e independência é necessário a busca da satisfação das demandas individuais afetivas e das que representam auto-realização.
Como já aludimos anteriormente, a educação voltada para o Outro promove auto-esquecimento, e, conseqüente auto-desvalorização, o que permite ao Outro se tornar hierarquicamente superior. Essa assimetria característica das relações de gênero afirma dualismos que persistem por diversas gerações.
Portanto, antes de constituir a família tão idealizada pelos protocolos de gênero, a mulher já apresenta um altíssimo nível de fantasia, estimulada pela concepção romanceada de “e viveram felizes para sempre”. Porém, nem mesmo a permanência em segundo plano garantirá a proteção e segurança tão sonhadas.
Para viver uma relação de conjugalidade é necessário se dispor a negociações que possibilitem tolerância à alteridade e desconstrução das culpabilizações mútuas.
Considerando que ainda na atualidade as concepções do que é ser mulher e homem sofreram pouquíssimas mudanças, o contrato protocolar do casamento ainda exige que a mulher se submeta e o homem domine. Desta forma, a quebra de contrato vigente pela mulher pode dar início ao jogo de manipulações que em última análise, culmina em violência entre os cônjuges.
Longe de reafirmar a concepção da vitimização feminina, tão debatida inicialmente pelo movimento feminista que tem início nos anos 70, optamos por compreender melhor a conjugalidade violenta, e, em especial a submissão da mulher a tal condição.
Entendemos que gestada na dependência e responsabilizada pelo sucesso da relação conjugal, a mulher atribui sua permanência em relações conjugais violentas aos filhos, à dificuldade financeira, ao alcoolismo e a perda do emprego do cônjuge, para evitar o desapontamento familiar, entre tantas outras questões. No entanto pesquisas relacionadas à temática demonstram que um percentual bastante significativo de mulheres não abandona o cônjuge, mesmo não tendo presentes os fatores citados.
Diversas teses afirmam que universalmente a violência conjugal não conhece fronteiras. Ocorre em diferentes classes sociais, etnias, religiões e culturas, ocorrendo também em populações de diferentes níveis de desenvolvimento econômico e social, e seu impacto causa danos não somente a mulher, mas também a toda uma rede de relações. A pluricausalidade da violência nos coloca frente a um objeto complexo e polissêmico que dificulta consensos e polariza diversos debates acerca de suas determinações.
Concordamos que a organização social permite práticas de poder que sustentam a supremacia masculina e a desvalorização feminina, portanto mantendo um quadro de desigualdades sociais, cuja estrutura hierárquica retém a mulher em posição subalterna.
Ressaltamos, no entanto, que a violência conjugal se insere na caracterização de violência doméstica, onde a mulher tem como vetores de sustentação a segurança, a proteção e a afetividade.
Lembramos que o espaço doméstico-lar habita o imaginário da mulher como a casa do pai, diante de quem foi ensinada, na posição de filha a silenciar, respeitar, acatar e a amar a despeito de qualquer coisa.
Essa posição de implicação subjetiva resulta na fantasmática que povoa seu imaginário até a fase adulta e porque não dizer por toda existência exigindo elaboração. O lugar subalterno, internalizado desde a família nuclear, lhe dificulta a clareza quanto aos cenários: casa do pai – casa do marido, paralizando-a entre o sentimento de culpa por acreditar-se errada e merecedora de punição, e o ressentimento por não ter sido atendida em suas expectativas e fantasias românticas.
As nuances da violência variam desde estratégias de desaprovação da conduta, destruição das suas redes familiares e sociais, subtração de documentos, proibição de qualquer aquisição sem consentimento do cônjuge, imposição para saída do emprego, demonstrações de ciúmes que incluem mudança de trajes e restrições de saída à rua, etc. Essas estratégias provocam isolamento, impossibilidade de buscar apoio, sensação de desamparo, imobilidade e instabilidade. Todas destroem a mulher psiquicamente, tornando-a débil e infantilizada. Nesse estado confusional se submete cada vez mais ao seu algoz.
De acordo com Fávero (2010, p. 275) há, portanto, um continuum crescente de condutas abusivas (grifo da autora), que inclui:
“o insulto, negação do universo afetivo, desaprovação de qualquer realização, a culpabilização por todos os fatos e problemas que ocorrem na família, a injúria, [...], a desqualificação como mãe, esposa, amante e profissional, [...], a ameaça de violência contra ela e os filhos, e assim por diante”.

A repetição da violência pode estabelecer um padrão cíclico de agressões e sedução, visando amenizar o conflito e garantir a manutenção do silêncio, levando a mulher a estados de oscilação entre frustrações e esperanças, tão semelhantes à fase infantil. Talvez isso explique a dificuldade da mulher denunciar o cônjuge agressor. Em seu imaginário pode ser desacreditada, e ainda perder seu amor, tal como se sentia na infância em relação à sua mãe e seu pai, quando desaprovada em público, experiência recalcada que face à semelhança de sentimentos lhe faz retornar à cena traumática exigindo elaboração.
Chamamos a atenção para a presença da memória que atua como dispositivo que trás a tona as experiências traumáticas ao longo do percurso existencial, forçando uma elaboração, a qual a mulher na posição de filha ficou impedida de realizar.
Esse conflito que comporta vertentes múltiplas e ambivalentes, tem a presença de traços mnêmicos fundamentais na subjetivação do feminino (grifo nosso): os protocolos adquiridos na relação mãe-filha.
A complexidade e a força dos processos psicológicos presentes nessa situação é de tal ordem que não é possível inferir qual a via de elaboração ou linha de fuga será escolhida pela mulher.
Lembramos, porém, da força dos protocolos transmitidos geracionalmente que levam a mulher a priorizar o Outro.
Assim sendo, o temor do julgamento alheio, tão enfatizado pela educação materna, pode levá-la a tradicional expressão: ele perdeu a cabeça!(grifo nosso). Nessa lógica do Outro pode também se oferecer em holocausto para impedir que a violência física se estenda aos seus filhos.
O processo de mobilização para mudança do padrão relacional se torna mais complexo ainda, se na posição de filha foi testemunha silenciada das agressões à sua mãe. Esse silêncio, pleno de ditos e não ditos, pode ecoar através do revide da agressão ao homem que ao agredi-la também agride sua mãe ou repetir o comportamento na experiência traumática prévia: silenciar usando desculpas, evitações e como última fronteira psíquica – naturalizações.
“Quando alguma coisa está errada dentro de nós, procuramos a causa do lado de fora e logo a encontramos” (GAY, 1995, p. 78).
Dentre as estratégias de apaziguamento do conflito interno e externo, a mulher pode se entregar à religião, doando seu poder de resolução pessoal a um elemento Divino que solucionará por seu próprio poder o destino traçado para ela. Pode também se tornar totalmente submissa às vontades e desejos do Outro, sujeitando-se às suas determinações
Neste ponto consideramos pertinente levantar duas indagações.
A submissão na seria uma forma de não se responsabilizar por si mesma, tal qual na relação mãe-filha? Renunciar a autonomia e a autodeterminação, reconhecendo sua fragilidade psíquica não seria uma opção pela morte por mãos alheias?
‘A total apatia, a falta de sentimentos e re-sentimentos, a incapacidade de alegrar-se ou entristecer-se, de estar “cheio” de amor e cólera, de desejo, a desaparição da passividade, entendida como espaço virtual e acolhedor para a preservação do outro não equivaleria talvez à morte?” (BODEI, 1995, p. 11).

Não pretendemos esgotar as plurais possibilidades contidas no comportamento submisso da mulher frente à violência. Ressaltamos que a força dos protocolos do ser mulher transmitidos na relação mãe-filha parece fazer com que seja natural e inerente à natureza feminina o viver para o Outro, e, consequentemente, abdicar da autonomia e autocontrole. Esses protocolos são processos construídos por tradições e valores sociais que instituem uma hierarquia onde a mulher só tem seu reconhecimento e sua identidade se confirmada pelo Outro, sua mãe, seu pai, seu cônjuge, seu parceiro. Em atendimento aos protocolos recebidos, ela deve dar direção e sentido a sua existência na busca de uma relação que a constitua como mulher.
Consideramos importante sublinhar que não há maior submissão e servidão do que repetir, já na idade adulta, a experiência infantil de ter assegurada a existência física, moral e psíquica pelo Outro, mesmo que este não faça uso dessa apropriação de forma violenta ou perversa.
Especificamente em relação à submissão da mulher à violência parece haver uma promessa de atendimento aos protocolos transmitidos na relação mãe-filha.
“Senão nos obrigássemos a cumprir promessas, jamais seríamos capazes de conservar nossa identidade; seríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados em suas contradições e equívocos – trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença dos outros, que confirma a identidade entre o que promete e o que cumpre, poderia dissipar”(ARENDT, 1989, P. 249).

Uma promessa que mantém presente o referencial que educou, cuidou e forjou o ser mulher.
Referências Bibliográficas
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BENJAMIN, Jessica. The bonds of love: rational violence and erotic domination. In: The Future of Difference (H. Eisenstein & J. Alice, eds.) New Brunswick/London: RutgersPress, 41-70,  1990.
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